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Ministério dos Livros

Um blog sobre livros e seus derivados

Leitura - "Quem Traiu Anne Frank?" de Rosemary Sullivan

06.04.22

Cópia de Uma das últimas compras (39).png

Mais sobre o livro aqui

Comecei a ler este livro já ciente da polémica que estava a levantar, mas tentando não ser influenciado por ela. Tentei ler o livro pelo livro e, eventualmente, tirar as minhas conclusões.

A primeira nota de registo é que, mesmo que o livro não tivesse qualquer conclusão efetiva, seria sempre um bom livro. Para alguém que, como eu, não era grande conhecedor da realidade envolvente à história de Anne Frank e das famílias que ficam escondidas no chamado anexo secreto, considero que se trata de um excelente documento histórico, bem estruturado, claro e muito informativo. Permitiu-me ficar a perceber muito melhor a realidade da época.

Sobre o tema de fundo, a investigação que concluiu sobre quem terá sido o denunciante das pessoas escondidas no anexo secreto do nº 263 da Prinsengracht, entre elas Anne Frank, gostaria de registar o seguinte:

- a investigação pareceu-me bem estrutura, argumentada e defendida;

- pressupondo que os elementos apresentados são verdadeiros (são-nos apresentados dados e factos como confirmados e validados) a teoria faz sentido e é coerente, ou seja, é possível pela dedução das provas e da reconstituição dos acontecimentos, aceitar como válida a conclusão dos investigadores.

- não houve uma denúncia efetiva, direta de Anne Frank e da sua família. Não foi uma denúncia pessoal. Terá sido uma partilha de várias moradas onde estariam, ou poderiam estar escondidos cidadãos judeus, entre os quais a família Frank.

A forma como a conclusão do livro nos é apresentada é bastante humilde. Não há nenhum espetáculo à volta da descoberta, antes um cuidado enorme em inclusive não crucificar o delator e em enquadrar as circunstâncias em que terá tomado a decisão de fornecer moradas onde estariam cidadãos judeus escondidos. Mesmo no final do livro pode ler-se “As decisões que Arnold van den Bergh tomou tiveram consequências fatais, mas, em última instância, não foi o responsável pela morte dos habitantes da Prinsengracht 263.”.

A celeuma gerada pela publicação do livro, e a sua retirada de circulação na Holanda, estará, acredito, mais relacionada com a posição que o denunciante teve (membro do Conselho Judeu) do que propriamente com a conclusão em si. O facto de não existir uma prova cabal, como um testemunho escrito, mas antes um vasto leque de peças de um puzzle que se encaixam, deixa margem para discussão e dúvida. Mas, como disse, a teoria está, na minha modesta opinião, bem montada. E tenho muitas dúvidas de que, se o denunciante tivesse sido o merceeiro (foi uma hipótese levantada), houvesse tanta contestação.

O livro vale por si mesmo como documento histórico. A teoria fez-me sentido e parece-me credível, com os elementos apresentados. Cada um pode fazer a sua própria aferição. Eu aprendi bastante com o livro e convido sem qualquer dúvida à sua leitura, apreciação, mas também a um momento de reflecção sobre como terá sido para todos os que se viram nas circunstâncias relatas neste livro. É muito complicado fazê-lo, especialmente porque não sabemos o que é ter de lutar pela nossa sobrevivência e daqueles que amamos.  

O único ponto que me parece que não beneficia o livro é o título que foi conferido e que, esse sim, tem um caráter comercial. Ou melhor, beneficia nas vendas porque causa impacto, mas não faz jus ao seu real conteúdo. Se analisarmos bem, a conclusão do livro não é quem traiu Anne Frank, mas sim qual a situação que levou a que pudesse ter sido descoberto o anexo secreto onde estava, entre outras, a família Frank. O título é muito forte para a substância do livro. É apenas a minha opinião.